terça-feira, 17 de abril de 2012

Impávido

Quando a serenidade vier bater em minha porta
Estará escancarada, sem pressa
Quando a tristeza provocar tremuras em minhas janelas
Estará cerrada, sem frestas
Porque o que é certo
é a serenidade me invadir e a tristeza me deixar
Porque agora tudo tem sentido
e nada faz sentido
E todos os meus sentidos se deitam sobre o meu ventre
Ventre, essa forte e impávida palavra
Dele brota minha mais longa e doce espera
Impávido, impávida, como a representação do ventre
Que venha: ele ou ela, destemidamente...

quinta-feira, 1 de março de 2012

Meu Relicário de Aniversário

Eu avanço o calendário
Uns chamam aniversário
Olho o tempo que passa por mim
Há tempos não passo por ele
Descobri que não são meus os dias e as noites
Mas peço sinceramente que os meus dias sejam mais curtos e
minhas noites mais longas
Não controlo os ponteiros do relógio
Mas peço ternamente que congelem para estar com os que amo
e dedicar apenas poucos minutos ao trabalho no meu anuário
São pedidos, tão sinceros e ternos, típicos de quem fica mais velho...

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Fotossíntese

Um ditado, um bom conselho,
Um poema, uma canção...

E segue a rima... ou não!


Fotossíntese

"Para que uma nova florada floresça
É necessário que a rega seja feita com lágrimas
O sal tem a função de dar a pitada do amor
Para que caiam as pétalas mortas
Dando espaço para as novas, bem vivas...

Se a flor se mostra rosa
Há de ter alguns espinhos
Diz a sabedoria, perceber quando podá-la
Se arriscamos no corte cedo
É conveniente proteger os dedos

Como não há receita para a boa floração
É pertinente que ela se dê com atenção
Preservasse a raiz
Reforçasse o bom adubo
E apenas como espectador
Observar seu crescimento
Esperando com ternura o dia da fotossíntese."

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Espera

Pela fresta da janela
Há dias de ver o sol
Há dias de ver a chuva

Agora penso que é tempo
de olhar a chuva
e esperar a tempestade passar
Antes da chuva: a ventania
Depois que ela finda: a poesia...

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Nunca aprendi rimar

Maria Augusta Assirati, a Guta, é presença marcante em minha vida. Seus versos já foram postados por aqui. Guta faz prosa cheia de doçura em reposta ao meu "Não sei fazer poemas". E peço permissão por licença poética para titular suas rimas. Lhes apresento:

Nunca aprendi rimar

"E eu que nunca aprendi rimar
aquele mar de pensamentos,
que onda riam, onda calavam
a areia fina de meu peito,
inventei de amar a poesia

Fiz do verso a alegoria de meus medos
da palavra, a fantasia dos dias
em que eu, nua, vestia preto

Deitava assim uns traços vãos
na imensidão de um papel qualquer
resignado e reto

Das linhas curvas brancas de minhas febres
escapavam vozes baixas, tímidas
que a tinta entre os dedos das mãos desnudava lentamente
vivenciando aquelas frágeis frações,

Eram mais que poesia
Eram uns pedaços da liberdade descuidada
despudorada
Eram esboços de uma beleza invisível,
Inseparável do espaço oculto de meus prazeres e dores

E eu que nunca soube rimar
conheci minha íntima poesia
E aprendi a chorar palavra
a sorrir poema
sem rima
sem graça
sem vergonha"

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Não sei fazer poemas

Minha agonia é delirante
Quase redundante de tão abundante
Sai rima de onde não espero, não quero
Escrevo de forma a jogar palavras no papel
E tenho contigo uma Lua de Fel
Veja que a rima: me persegue!
Como se simples fosse o que sinto
Complexo é como me comporto
E tensa, há dias que não me suporto
Irritante, a rima se impõe

Louca, louca, sou louca por ti
Inspiro e transpiro nosso amor
Mas hoje, paradoxalmente, minha ira ecoa
a falta e a presença de humor

Sou perseguida por ela: a rima
Desisto...
Não sei fazer poemas
Sei chorar pingado, versos apagados
Num coração despudorado,
Preenchendo o vazio do papel branco pautado...

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Do cinza ao azul

A cor é poesia
A saudade, melancolia
O silêncio, sabedoria
Nosso amor, só sintonia
Veja, a cor que me invade
Varia do cinza ao azul
Há dias de tempestade,
onde só a tristeza persiste
Há dias ensolarados,
onde a alegria me assiste
Há dias de ventos fortes,
onde aponto meu dedo em riste
Há dias de calmaria,
e o que me dói já não resiste
Te cerca de cores fortes,
vivas e brilhantes
E vive tua saudade,
certa de que é só por instantes!